quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Mal assombrada?
17:30 | Postado por
Elen Gruber
Eu suspeitava desde o princípio. Era fácil notar sua estranheza. Todos os dias eu passava por ela e notava algo diferente, que dava medo só de olhar. Meu corpo se arrepiava como se um troço esquisito fosse acontecer a qualquer momento. Conhecia bem aquele ar gélido de outras experiências e, senti-lo novamente, era algo nostálgico e assustador. Eu ouvia muitas histórias a respeito dela, mas para mim, ela era mal assombrada. A casa mal assombrada.

Tudo começou num dia comum. Enquanto caminhava pra o trabalho, reparava nas pessoas apressadas, nas ruas cheias de carros e nos ruídos que já eram tão comuns aos meus ouvidos. Foi quando decidi parar no meio do percurso. Parei para observá-la. Entreguei-me ao seu magnetismo para ver o que acontecia. Cheguei ainda mais perto, com muito cuidado e bem devagar. De repente estava ali, com o pescoço esticado e com as mãos encostadas na mureta da casa. Fiquei olhando aquela “coisa” com espanto e admiração e, por uns instantes, senti como se de alguma forma ela fosse minha.
Pulei a muretinha e entrei na casa. Fiquei parada bem no meio do quintal.
Meu maxilar parecia travado e minhas pernas tremiam como nunca. Nem tinha me dado conta do horror do que estava fazendo. Mas não era só pelo fato de estar num lugar estranho, pois o lugar era mais meu do que do outro, mas sim, de perceber que aquilo me excitava.
Eu tinha que ter certeza de que ela era mal assombrada, mas como? Não via nenhuma porta aberta.... Não existia nenhuma fresta... Lacraram as brechas, trancaram as portas e portões... Por quê? Não deixaram nenhuma pista, nenhuma evidência... Por que tantas fechaduras? Seria uma proteção aos buliçosos e mexeriqueiros que constantemente a rodeavam, como urubus atrás de carniça? Ora, por que eu estava ali, tentando entender coisas que não eram da minha conta? Às vezes as coisas são o que são sem terem motivos de serem o que são. Elas apenas “são”. E todas elas possuem sua devida importância nessa gelatina que nos envolve.
Mas o fato é: por que eu queria que a casa fosse mal assombrada? Ah! Sim, queria me meter lá dentro, sentir o cheiro dela, dormir com ela... Queria ver o seu horror, pra outra vez, sentir o calafrio no corpo, o troço esquisito que relembrava minhas experiências frustradas, meu passado mal assombrado.
Até que em um determinado momento, enquanto girava meu corpo com meus pensamentos no meio daquele quintal, percebi algo que me chamou atenção. Por um descuido de alguém ou de algum fantasma, a casa estava aberta. Havia uma brecha na porta. E eu precisava de apenas uma brecha para bisbilhotar o que se passava do lado de dentro. Apenas de uma brecha.
De repente, eu vi algumas crianças correndo pela sala. Embora minha visão não fosse tão ampla, pude perceber que havia mais pessoas na casa. Era um senhor de cabelos brancos, e uma senhora também. Vi homens e mulheres alegres e contentes. As paredes da casa eram claras e limpas. Os móveis eram lustrados e os vasos cheios de flores vivas! Era tudo claro, lindo e limpo. A casa não era mal assombrada. Foi quando dei um passo atrás e saí correndo. Corri desesperadamente, como quem corre de um fantasma. Corri por horas e horas, dias e dias, noites e noites, até que os anos se passaram e minhas novas descobertas me fizeram esquecer dos fantasmas, da assombração, e dela, que para mim, era mal assombrada.
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Tudo começou num dia comum. Enquanto caminhava pra o trabalho, reparava nas pessoas apressadas, nas ruas cheias de carros e nos ruídos que já eram tão comuns aos meus ouvidos. Foi quando decidi parar no meio do percurso. Parei para observá-la. Entreguei-me ao seu magnetismo para ver o que acontecia. Cheguei ainda mais perto, com muito cuidado e bem devagar. De repente estava ali, com o pescoço esticado e com as mãos encostadas na mureta da casa. Fiquei olhando aquela “coisa” com espanto e admiração e, por uns instantes, senti como se de alguma forma ela fosse minha.
Pulei a muretinha e entrei na casa. Fiquei parada bem no meio do quintal.
Meu maxilar parecia travado e minhas pernas tremiam como nunca. Nem tinha me dado conta do horror do que estava fazendo. Mas não era só pelo fato de estar num lugar estranho, pois o lugar era mais meu do que do outro, mas sim, de perceber que aquilo me excitava.
Eu tinha que ter certeza de que ela era mal assombrada, mas como? Não via nenhuma porta aberta.... Não existia nenhuma fresta... Lacraram as brechas, trancaram as portas e portões... Por quê? Não deixaram nenhuma pista, nenhuma evidência... Por que tantas fechaduras? Seria uma proteção aos buliçosos e mexeriqueiros que constantemente a rodeavam, como urubus atrás de carniça? Ora, por que eu estava ali, tentando entender coisas que não eram da minha conta? Às vezes as coisas são o que são sem terem motivos de serem o que são. Elas apenas “são”. E todas elas possuem sua devida importância nessa gelatina que nos envolve.
Mas o fato é: por que eu queria que a casa fosse mal assombrada? Ah! Sim, queria me meter lá dentro, sentir o cheiro dela, dormir com ela... Queria ver o seu horror, pra outra vez, sentir o calafrio no corpo, o troço esquisito que relembrava minhas experiências frustradas, meu passado mal assombrado.
Até que em um determinado momento, enquanto girava meu corpo com meus pensamentos no meio daquele quintal, percebi algo que me chamou atenção. Por um descuido de alguém ou de algum fantasma, a casa estava aberta. Havia uma brecha na porta. E eu precisava de apenas uma brecha para bisbilhotar o que se passava do lado de dentro. Apenas de uma brecha.
Cheguei mais perto.
Foi estranho. Eu ouvia um som bem distante. A cada passo que eu dava o som ia ficando mais forte, se revelando numa música agradável, que meus ouvidos a receberam com bastante conforto. Que música linda! Seria uma festa? Meus olhos se encheram de lágrimas....
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