sábado, 1 de maio de 2010

Cirandinha de criança IV - A Tapioca

Quando eu morava em Acaracuzinho, lá pelas bandas de Maracanaú, pertinho de Genipapeiro, todas as manhãs de segunda-feira eu comia tapioca. A moça passava na rua gritando, Olha a tapioca, Olha a tapioca, Olha a tapioca boa e gostosa, e eu saía correndo pra fora de casa para comprar. A moça da tapioca se chamava Maria das Dores, mais conhecida como a moça da tapioca. Do portão de casa eu a avistava cruzando a esquina se rebolando toda. Ela era morena, alta, magra, porém feia, feia que doía. A moça andava meio corcunda com a lata na cabeça, e o cabelo era sempre o mesmo: louro à força, que lembrava mais gema de ovo do que qualquer outra coisa. Os dentes dela mal cabiam dentro da boca, ficavam mais pra fora do que pra dentro. Mas a tapioca era boa, boa e gostosa, mais gostosa do que boa. Mamãe também se chamava Maria, mas não das Dores, era Maria de Deus, só de Deus mesmo. E assim como a Maria das Dores, Maria de Deus também fazia boas tapiocas, porém, eu gostava mesmo era da tapioca da Maria das Dores. Mamãe era melhor no preparo de uma boa galinha cozida, apesar de, sempre antes de comer a galinha, ter que rezar por sua alma que jazia em seu leito de morte em meu estomago. A última vítima foi Aldegunda, a galinha que eu mais gostava das cinco galinhas que moravam no quintal de casa. Coitada, não teve jeito, tinha chegado a sua vez e mamãe fez um belo ensopado dela. Mas voltemos ao que interessa: as tapiocas de Maria das Dores, que eram as melhores, que vinham quentinhas dentro da lata, daquela lata grudada na cabeça de Maria, digo, Maria das Dores. Naquela época, tapioca era só tapioca, assim do tipo, pura, e às vezes com manteiga, mas de uns tempos pra cá deram de inventar moda com a tapioca. Tem tapioca de queijo, Romeu e Julieta, leite condensado, chocolate, banana e de carne-de-sol. E a tapioca foi ficando cada vez mais famosa, tomando seu espaço neste mundo globalizado. Até inventaram uma McOferta, que era Tapioca, batatas fritas e água de côco, e pagando mais um real, você levava um delicioso sorvete sabor tapioca. Mas aí eu mudei de cidade e nunca mais vi a moça da tapioca. Fiquei sabendo que ela abriu um estabelecimento numa sociedade com sua amiga, Maria do Socorro, e não confunda, é do Socorro, não é nem de Deus e nem das Dores, é do Socorro, Maria do Socorro, e a engenhoca se chamava Tapioca’s bar, mas, depois de dois anos Maria das Dores morreu. Morreu solteira, rica e feia. Dona Margarida, a futriqueira, disse que Maria das Dores morreu de dor nas costas, mas nunca descobriram o porquê dessa dor, e o que se sabe é só isso. Coisa triste. Quando fiquei sabendo, fiz uma super tapioca em memória de Maria das Dores, a moça da tapioca. Às vezes eu como uma tapioca por aí, mas nada se compara a tapioca de Maria das Dores. Também andei experimentando a tal da pamonha fresquinha de Piracicaba, do puro creme do milho verde, mas eu gosto mesmo é da tapioca, da tapioca boa e gostosa.

10 comentários:

João Batista disse...

Todos fazemos diferença na vida uns dos outros. Seja para o bem ou para o mal.

É maravilhoso saber que podemos fazer a diferença na vida de diversas pessoas, não é mesmo?

Um bjão.

Hapi disse...

hello... hapi blogging... have a nice day! just visiting here....

jito disse...

haha..

Dona Margarida, a futriqueira, escreveu em seu blog ontem de manhã:

- E a tal da Elen, filha da Maria de Deus? Se mandô pra São Paulo, arrumou marido loiro, de olho azul, casô cheia das frescura, numa igreja bonita, a beira dum lago grande que só vendo!
mora no centro, trabalha com negócio de bolsa..
- virô quenga, é?
- não! de certo que vende bolsa falcificada na 25 de março. Mas o pior não é isso não. Agora criou um blog, e deu pra falar mal da vida dos outros..
- num diga, Dona Margarida?
- digo! E digo mais.. por causa disso, ta todo mundo dizendo que meu esposo é mão de vaca!!! Pode?


não preciso dizer que adorei o texto, né? hahaha

Elen Gruber disse...

ahahhaha ah se Margarida fica sabendo...

-Lízie disse...

eu tbm comia tapioca, a legitima tapioca de feira lá de macapá, era mt boa.. mas nunca mais achei a tal tapioca, nem a feira oO

Alessandro Gruber disse...

Elen, sensacional esse texto!
Você poderia ter aproveitado e aprendido a fazer a receita dela!

jito disse...

aff.. o alê já pensou em comer a tapioca!!
e o sentimentalismo? e o saudosismo poético?
as relações humanas?

afinal, quando vamos comer a tal da Tapioca?
Sim, pq agora me deu fome..

Elen Gruber disse...

Maria das Dores morreu e eu não sei fazer tapiocas. heheh

Meyre Andreu disse...

ai q tristeza!!! Coitadinha da Msria das Dores. Pelo menos morreu rica ne mana?rs
Mas a tristza maior foi ela ter morrido, e vc sequer pode aprender a fazer a tapioca dela.
Eu lembro dela gritando com um sotaque arrastado de cearence... oia a tapioca pessual. oia a tapioca boa e gostosa!! ceis tem q pruvar!rs

felipe tonasso disse...

esperei a frase final ser: "..mais boa, que gostosa!" parece música que termina suspensa e vc espera o TCHAN! mas ele nunca vem.

as dores da maria, a corcunda, tudo remonta o mosaico perfeito: elen, você matou maria.

ela morreu de "tapioca".
e só era boa, pq era ela quem fazia. ela, as costas, a lata, a morte.

sua tapioca gigante foi mera externalidade de angústia e escuridão de alma.

assassina!

:(
pense nisso!

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