Enquanto isso, eu vou assim. Assim... Do tipo meio assim, assim. Sabe? Não sei explicar direito. Tem horas que não adianta falar difícil. Se já é difícil falar, quanto mais de modo difícil. Talvez eu prefira calar. Calar pra não complicar. Acho que é melhor assim. É melhor pra mim. É que eu falei tanto, ri tanto, gritei tanto, que agora é assim: Rouca. Sem som. A voz não sai. Fica dentro. Já sentiu isso? E eu falo sério. Desta vez não é ciranda, nem cirandinha. Antes fosse brincadeira, mas não é. É o que é. É reclusão por vontade própria. É silêncio.
Quando eu era criança tinha problema na fala. Eu trocava os sons. A língua embrulhava feito nó. Daí, mamãe me mandou pro médico pra dar um jeito nisso. Eu nem sabia que existia médico para essas coisas. Mas lembro que tive que passar durante um ano, todas às quintas-feiras, repetindo centenas de palavras com o tal médico conhecedor das palavras. Mas aí passou. Fiquei boa. Tive alta. E então, eu cresci e até mudei meu sobrenome. Isso foi coisa boa. Hoje calço 34 e visto 38. Mas não sei o quê que aconteceu, que agora eu dei de voltar a ser criança. A língua voltou a se enrolar. Ando assim, meio moca, muda. O berro oco não quebra o silêncio da casa, do quarto... Da alma. Alma vazia, fria, só. Qual era mesmo o nome do médico de fala? Esqueci.
É na Consolação que pego o caminho de volta para casa. Ando na linha. Às vezes, também, como uma astronauta em mundo estranho. Ao todo, são seis estações até chegar à Chácara Klabin. No caminho, brinco com os meus botões. Eles estão gastados. Dos cinco, ainda falta um. Ele caiu no chão, eu acho. Preciso comprar uma blusa nova... Novos botões. Ando pensando muito e falando pouco. Acho que estes botões não darão conta de segurar a pressão. Amanhã eu passo no alfaiate.
Todos os dias tem sido a mesma coisa. Engulo notas e notas da mesma canção, da mesma clave. Vai ver, é por isso que engordei três quilos só neste mês. Por isso que, de vez em quando, a barriga dói. Fico enjoada, como quem quer vomitar, mas não vomita. É por causa dela, da voz que não sai. Fica dentro. Ela faz cria e se multiplica dentro de mim. Cutuca a pele e vira ferida que não cura. Úlcera.
Engraçado. Já reparou que parece que o tempo passa e a gente volta a ser criança? Outro dia torci o meu pé na esquina de casa. Tive que usar gesso por um tempo e depois fiquei boa. Minha perna sarou, mas continuo com as muletas. E eu não dou o direito a ninguém de tirá-las de mim. São minhas muletas.
É verdade que hoje começa a primavera? Estranho, sinto frio. Parece inverno. Mas ainda bem que existem estações. Imagina só se fosse sempre frio? Daqui a pouco chega o verão e sol brilhará para todos, nem que seja um pouquinho. E enquanto isso, eu vou assim, assim, do tipo... Assim. É difícil descrever os distúrbios de minhas emoções. Tento não dar atenção à elas, mas a tentativa é vã. Elas querem fazer barulho. Então, volto ao bê-á-bá para encontrar algum eco, mas não encontro. A voz não sai.
Ainda bem que podemos virar as páginas dos livros. Ainda bem que todas as folhas possuem verso. Ainda bem que existe silêncio para que os sons se evidenciem. Ainda bem. Ainda bem.
Enquanto isso... Eu tento virar a página para uma nova história. História de criança com final feliz. Um novo começo, com frutas e flores. Talvez seja possível achar graça até mesmo no cinema mudo.
4 comentários:
Muitas vezes me tranquei no meu mundinho escuro e vázio, sem nem às vezes pensar em como estava o dia lá fora.
Às vezes a tristeza e a solidão batem, não importa como a vida esteja boa, mas devemos ao menos ir a janela e ver como está lá fora.
Há pessoas que sofrem juntamente contigo, e outras que tem a capacidade de te alegrar.
Um simples pássaro pode mudar o modo que vemos o dia, e o sorriso de uma criança faz valer a pena viver.
A vida é dura, mas em infinitos aspectos ela é linda.
Olha mais para fora da janela do seu mundinho e não deixe suas limitações te voltarem para si mesma.
Um beijão.
Nossa, João!!! Que beliscão!ahaha
Realmente, não devemos focar nossa atenção ao nosso mundinho, quando se tem um universo lá fora.
Não se preocupe, olho todos os dias para as coisas mais lindas da vida e eu amo viver. Eu celebro a vida das mais variadas formas, uma delas é registrando e escrevendo sobre os bons e também dos maus momentos, afinal, nunca saberíamos que a felicidade é coisa boa, sem antes ter experimentado um pouquinho de tristeza, não é mesmo?
Não vou me jogar pela janela. ahaha
elinhaa..
Que tal uma gravidez?
bjos
lendo vc, lembrei de dois estranhos que li há pouco..
o saramago disse uma vez: "dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."
e a lispector completou "há um silêncio dentro de mim. e esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras.
vai ver nem voz é
é só silêncio! assim, tipo assim!
...
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