domingo, 12 de julho de 2009

Cirandinha de criança I - meu primeiro amor



Era a vez dele. Virou-se de costas e Olinda vendou os seus olhos. Ao meu lado estavam Finólila, Inocêncio, Abrilda e minha irmã. Naquela manhã tivemos o primeiro ensaio da quadrilha para a festa junina. Meu vestido era amarelo, com rendas bordadas e fitas de cetim vermelhas. Joaquim era meu par. Gritavam, Olha o túnel, e ele pegava a minha mão delicadamente para que atravessássemos aquele imenso corredor. Foi aí que tudo começou. Ele olhava para mim, eu desviava o olhar, ele olhava para mim e eu desviava o olhar. E no auge de minha juventude, com sete anos e meio de idade, já sofria por amor. O ensaio acabou e, no caminho de volta para casa, paramos na rua para brincar. Estávamos todos eufóricos. Eu, menina matuta, batia os pés no chão levantando toda a poeira da terra, minha irmã me cutucava e eu parava. Olinda conduzia a brincadeira, Eu escolho essa daqui, ela disse apontando o dedo para mim. Meu coração ficou ainda mais acelerado e meus olhos esbugalhados. Ela perguntou para ele, É esta. Antes de responder e ainda com olhos vendados, ele veio em minha direção, acariciou os meus cabelos e disse, É sim. Coloquei as minhas mãos na boca para abafar o riso incontido. Olinda ajeitou a postura feito sargento e deu sua primeira ordem aos aspirantes aflitos, Beijo, abraço ou aperto de mão. Levantei mais poeira do chão para distrair a vergonha. Beijo, ele respondeu. Aí, eu saí correndo em disparada feito uma doida. No meio do caminho, minhas havaianas quebraram, e já era a quinta só naquele mês. O Portão de casa estava aberto. De longe já se ouvia, Meu calhambeque bi –bi. Acho que Roberto Carlos já estava rouco de tanto cantar na radiola do meu pai. Filha, pega a chave Philips pro pai, ele disse. De cócoras lhe entreguei a chave debaixo do carro, e ele gritou, Esta é a chave de fenda, Quantas vezes vou ter que lhe ensinar. Pois é, eu ainda tinha que saber de cor e salteado o nome dessas coisas. Quantos problemas para uma menina de seus sete anos e meio de idade. Mas pelo que eu sabia, naquela época não existia mecânico mulher e não pretendia seguir esta profissão. Depois eu dou um jeito nas suas havaianas, foi o que ele disse para reparar a bronca desnecessária. Minha mãe estava no tanque cortando o pescoço da Aldegunda, que era a galinha que eu mais gostava de todas as galinhas que moravam no quintal de casa. Tadinha, morreu e agora jaz em seu leito de morte. Ainda restavam cinco delas na fila de espera para a terrível morte no tanque da dona Maria. Cansada daquilo tudo, fui ao meu quarto brincar com Benemérita, a Barbie favorita. Minha irmã chegou logo em seguida toda destrambelhada. Porque você saiu correndo, ela me perguntou ainda ofegante, e eu disse, Não lhe devo satisfação sobre meus sentimentos amorosos, mas acho que ele ainda não está pronto para um relacionamento duradouro. Tá doida é, ela perguntou. Peguei minha boneca e mudei de assunto, O que você achou do novo corte de cabelo de Benemérita. Lá da sala minha mãe gritou, Meninas o almoço está pronto, venham logo senão vai esfriar. E foi comendo Aldegunda que eu disse para meus pais sobre o meu primeiro amor. Mãe, pai, estou namorando.


6 comentários:

Meyre Andreu disse...

ao lembro nada disso Elen...
nem sabia desses nomes estranhos q vc dava as coisas...
mas, gostei da historia... me faz recordar a minha infancia...a nossa infancia...doces momentos q nao voltam mais..
saudades

Elen disse...

ahaha É que eu ando exercitando minha criatividade.rs. Mas tudo isso aconteceu sim, só que eu dei uma incrementada na coisa.

Você não lembra nem que você era destrambelhada! hahah

Meyre Andreu disse...

Q isso aconteceu eu lembro. Me lembro da mae correndo atras de galinhas varias vezes. Coitadinhas!! Como eu tive coragem de consumi-las depois de tanta luta pra tentar sobreviver. Lembro q o pai sempre enchia as paciencias da gente pra forcar-nos a entender coisas de mecanica... queria q tivessemos nascido homem, acho!!rs E me lembro tb q vc sempre teve muitos amores... mas desse da quadrilha nao me lembro...so se era da quadrilha de marginais!! kkkkkk pq da quadrilha de festa junina nao lembro... e se eu lembro q vc era destrambelhada, isso eu lembro sim.... pq vc nunca deixou de ser!! kkkkkkkkk

Marcus Vinicius disse...

Muito criativo o texto, faz lembrar minha infancia, adorava esta brincadeira do beijo abraço ou aperto de mão, me faz voltar no tempo, das havaianas é boa, putz como quebrava facil esta sandalha, agora parece que esta mais resistente.

parabens, pelo talento e imaginação viu, a mulher e pintora, cantora e escritora...

vou ler o proximo depois eu comento

abraço

Monteiro disse...

É sempre bom relembrar a infancia....principalmente quando nos traz boas recordaçoes.......É um texto muito bem elaborado e que deve ser bem guardado para no futuro, quem sabe, fazer parte de um grande best-seller!!!!!
Muito bom mesmo.

Marília disse...

adorei! : D

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