sexta-feira, 23 de abril de 2010
Cirandinha de criança III - As filhas de Maria
19:31 | Postado por
Elen Gruber

Em mil novecentos e antigamente minha mãe completou seus trinta e poucos anos de idade. Naquele dia ela saiu cedo de casa. Foi pra “cidade” fazer compras. Papai tinha saído para o trabalho e minha irmã e eu ficamos sozinhas em casa. E depois de poucas horas, já tínhamos feito de tudo. Assistimos o programa da Xuxa, brincamos com terra, vestimos as roupas e sapatos de mamãe, fuçamos as ferramentas de papai, competimos quem arrotava mais alto etc. e tal. Até que ficamos de pernas pro ar, sem nada para fazer. Bolamos um plano de preparar uma mega surpresa de aniversário para mamãe. Uma super limonada. Ora, ora, não tínhamos muitos recursos e não sabíamos fazer um bolo confeitado e nem muito menos brigadeiro, quindim, cajuzinho e beijinho. E do sofá, fomos direto para a cozinha. Pegamos os limões, a água e a jarra. Faltava o açúcar. Não o encontramos em lugar algum. Vasculhamos em toda parte e em tudo quanto era pote no armário e nada. Achei, sem querer, um resto de farofa azeda. É que, lá em casa, todos os domingos a gente ia à praia. Quero dizer, isso quando papai não resolvia fazer um “bico” bem na hora de sair e nos deixava esperando com a farofa pronta. Eu chorava e não tirava o maiô do corpo o dia inteiro. Minha irmã se consolava tomando banho com a mangueira no quintal. E a farofa ficava pro almoço, para não estragar. Mas esta, com certeza estava estragada. Fui até o quintal e joguei toda ela no prato de Frederico. O gato gostava destas coisas. Outro dia ele apareceu com rato na boca. Desfilava pela casa todo exibido, como se tivesse carregando um troféu. Mamãe o expulsou de casa com chineladas. Coitado de Frederico, vivia apanhando. E ele gostou tanto da farofa que lambeu todo o prato. Depois veio miando e se embrulhando nas minhas pernas enquanto eu voltava pra cozinha. Eu gostava muito de Frederico. Fiquei muito triste quando ele morreu. E não faz muito tempo que fiquei sabendo que ele tinha batido as patas. Não foi de morte matada, foi de morte morrida mesmo. Mas naquele dia ele estava ali, todo faceiro atrás de mais comida velha. Cheguei à cozinha e minha irmã me contou sua brilhante idéia. Pegaríamos açúcar no mercado da frente de casa. O Seu Erivaldo era o dono do estabelecimento. Gente boa. Só andava meio torto. A dona Margarida, a futriqueira, uma vez saiu espalhando que ele andava torto por causa de um problema nas ancas. E ela disse mais, falou que a culpa era da mulher dele que toda noite subia pelas paredes. Não entendia nada dessa história. Sabia que ele andava torto, e pelo o que eu via, a sua vida não era torta.
Pulamos o muro de casa. Primeiro eu e depois a minha irmã. Caí na gargalhada quando me lembrei do último episódio dela exatamente naquele pedaço de parede. A doida pulou o muro de um jeito, que lascou a bunda no chão. E tem uma cicatriz até hoje. Não demorou muito para que ela percebesse minha malvadeza no riso e ficou muito brava. Ameaçou quebrar o pescoço de Benemérita, minha boneca favorita, caso eu não parasse de rir. Calei o bico. Ajeitei o vestido e saímos feito panteras cor-de-rosa em busca do açúcar. Atravessamos a rua e entramos no supermercado. Enquanto eu vigiava o seu Erivaldo pela frestinha da porta, minha irmã pegava um punhado de açúcar de uma bacia. E isto não era roubo, era emprestado. Feito isso, saímos correndo e ouvindo o Seu Erivaldo gritando, Voltem aqui com o meu açúcar, suas filhas de Maria! Mas o leso não conseguiu nos alcançar por causa de suas ancas tortas, e ele soltou o verbo. Nem precisava tudo aquilo. Era só um bocadinho de açúcar que não lhe faria falta. O velho era tão mesquinha, pão-duro, que nunca me deu um doce sequer. Nem um biscoitinho. Outro dia vi um pote de iogurte vencido à venda na prateleira do supermercado. Vai ver, ele não andava muito bem das pernas. Digo isso não no sentido literal, mas, no sentido de pobreza mesmo, porque torto ele já era. É nisso que dá, vender fiado pra todo mundo. Mas era só anotar a porção de açúcar no caderninho, que depois mamãe acertava as contas, se fosse o caso. O que importava naquela hora, é que nós teríamos uma limonada doce para mamãe. Voltamos para casa, limpamos as mãos na roupa do corpo e terminamos a surpresa. Colocamos o suco dentro de um copo, que colocamos numa bandeja, que colocamos em cima da mesa, que colocamos no centro da sala, que desligamos a luz, que esperamos no sofá, que olhamos para o chão, que olhamos para o teto, que olhamos para as paredes e nada de mamãe chegar. Depois de algumas horas ela abriu o portão. A casa estava toda ensebada de açúcar. A suco parecia de jabuticaba de tão escuro. Cantamos parabéns e ela tomou um gole daquela maçaroca. Fez uma cara de gastura, virou os olhos do avesso e disse, Está uma delícia. Minha irmã e eu olhamos uma para outra e dissemos, Então toma tudinho.
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4 comentários:
Ta espectacular!Como deve ser bom reviver a nossa infancia, principalmente quando nos traz boas recordações!!!!
to com vontade de fazer um blog e contar essas historias tb mana..
saudadessssssssssssssssss
ahahahha. Faça isso!! Nós temos muuuuitas histórias interessantes que renderiam muitos posts!
hahahahahaha.. mt bom!
mas afinal, o dono do SUPER mercado,
é gente boa, ou pão duro, mesquinho e chingador de crianças???
gostei, hahaha
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