quinta-feira, 16 de julho de 2009
Cirandinha de Criança II - Mini Baby Ceará 90
20:22 | Postado por
Elen Gruber
Esse foi mais um dia de desfile. Não esses de moda ou coisa assim. Concorri a Mini Baby Ceará 90, coisa grande. Tão chique era o desfile, que tinha até traje típico, além do traje social e de banho. Na noite anterior, mal conseguia dormir com aqueles bigudinhos no cabelo para deixá-los enrolados. É que na ocasião, tava na moda o cabelo da Juma da novela Pantanal. Lá em casa ficou numa correria danada. A gritaria começou logo cedo por causa do cocô fedido de Frederico embaixo da minha cama. Nem tinha acordado direito, quando ouvi o gato miando e papai dando-lhe cacetadas para que saísse do quarto. Tadinho de Frederico, seu desarranjo intestinal era tanto, que todas as noites tinha que dormir fora de casa. Mas resolvida esta questão, e depois do banho tomado, mamãe veio me aprontar. Antes, porém, engomou-me com maisena, de modo que o vestido não pinicasse. Não sei que invencionice é essa, mas funcionava que era uma beleza. Conferimos os sapatos, roupas, e demais objetos necessários, e colocamos tudo dentro do carro. Mas no que abrimos o portão, o orelhão, lá do outro lado da calçada, tocou e papai foi atender a ligação. Naquela época, telefone era coisa de rico e rico a gente não era. Se eu quisesse fazer uma ligação, tinha que entrar na fila. Isso se tivesse sorte de não pegar dona Margarida fofocando da vida alheia, senão, teria que ficar esperando o dia inteiro. Mas a ligação era pro vizinho, que tinha saído para tomar cachaça no bar do Seu Vinícius. Saímos de casa. Arrudiamos quase a cidade inteira e nos perdemos pra lá de Papicú. Chegamos com alguns minutos de atraso. O meu patrocinador estava todo alvoroçado. E ele ficou me aperreando a noite toda, até que finalmente eu entrasse na passarela, esbanjando graciosidade com meu traje social. Daí, lembrei-me que foi em Acaracuzinho, lá para as bandas de Maracanaú, pertinho de Genipapeiro, que me tornei princesa do ano da escolinha onde eu estudava. E mal sabia falar, quando despertou em mim um sonho de um futuro brilhante nas passarelas. Queria ser super pop igual ao meu bisavô, que, com oitenta anos, se casou com uma cabocla de quarenta. O casamento foi o maior forrobodó, que saiu até no noticiário. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que o velho morreu do coração e a mulher se juntou com outro. Mas tamanha foi sua proeza, que, hoje, meu bisavô tem nome numa rua sem saída, lá em boa Esperança. Não queria sua sem-vergonhice, só pensava que talvez amanhã eu me visse na “TV Diário” com minha incrível faixa de princesa do Acaracuzinho. E não diminua o mérito pelo nome feio do lugar, pois, pior seria se fosse miss Conceição de Piancó ou até mesmo de Cabrobó, onde nasceram as mães de minhas colegas. Acho que mamãe queria que eu me tornasse miss universo, pois a partir daí, passou a me colocar em tudo quanto era concurso. Fui fazendo coleções de faixas e troféus. E tinha de tudo. Miss simpatia, mini baby, mini miss, midi miss...e por aí vai. Pois é, no Ceará tem dessas coisas. E sei lá pra que serve isso, nunca descobri. Mas, acredite ou não, eu ganhava em todos os concursos, e quando não, mamãe falava que era cambalacho, maracutáia. Mas esse foi mais um desfile que já estava quase no final. Papai disse que eu estava linda. O júri deu a nota e eu ouvi meu nome. E agora, estava ganhando mais um posto, o de Mini Baby Ceará 90. No entanto, para minha surpresa, eu não gostei. Não via mais graça nesta coisa. Tinha para mim, que desta vez ganharia algo diferente, mas não, era mais uma faixa para Frederico brincar no quintal de casa. Ah, sim, ganhei um autógrafo do Leão-lobo e uma foto com Wagner Santisteban, que não eram lá grandes coisas. Também publicaram a notícia numa coluninha de um jornal da comunidade que gente descente nunca lê. Desisti desta vida e no dia seguinte marquei uma reunião na casa de Abrilda. Lá discutimos em como poderíamos nos tornar pakitas de sucesso. E assim, no nosso primeiro dia de ensaio, eu já visualizava um futuro brilhante ao lado da Xuxa, cantando,”tudo pode ser, se quiser será, o sonho sempre vem pra quem sonhar...”.
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6 comentários:
hahahaha
vala abestada, esse texto ta cheio de palavras nordestinas bem avexadas...rsrsrs
gostei sim.... e claro q tem uns exagerinhos....rsrs mas, me fez lembrar varias coisas da nossa infancia...
Texto lindo! Deve ser muito bom reviver a infancia!!!principalmente quando nos traz boas recordaçoes!!
bacana pequena miss sunshine
Que meiga, pequena Miss.
é eu tive esses sonhos também.
Fui 1º princesa num concurso da escola.. nem esperava..
Mas veio a vida e mudou o rumo, fez com que desistisse da vida 'glamurosa'.[Acho que não era pra mim essa vida].
Beijão
concordo com a meyre. é cada palavra pai-d'égua que umas nem eu, que nasci e sempre morei no ceará, conheço ou falo... hahaha... mas adorei, mais uma vez, a narrativa.
parabéns pelo título! eu me lembro dessas coisas... rsrs... também não sei para que serviam, mas sei que você continua linda!
beijos.
ps - existiam tv diário em 1990? valha... rsrs...
puxa,e a PEMALEX apostou tudo em vc!?que decepção! ;)
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