quinta-feira, 18 de março de 2010

De repente assim.

Hoje eu descobri que sou inconstante. Em um momento estou tremendamente feliz e daqui um minutinho estou sofrendo, chorando por sei lá o quê. No entanto, por mais estranho que isso possa ser, às vezes a tristeza aguça o meu lado criativo e ela acaba sendo uma aliada das minhas principais crias. Então resolvi escrever sobre ela, a tristeza. Ligue o meu radinho na música mais triste que encontrar, só para dramatizar ainda mais a coisa.
Tudo pronto? Aperte o play e fique triste.




Do nada ela aparece na minha frente. Vem vindo bem devagar. Esparrama-se dentro de mim. Vai entrando pelas entranhas e por todos os cantinhos do meu corpo. É a tristeza mais uma vez. Abusada e buliçosa tristeza. Invade meu espaço, meu tempo... Consome o pouco da alegria que ainda me resta, até o último fiapo. E o cenário aos poucos se transforma. Sem que eu perceba, o cinza paira no ar. Minha sinestesia é alterada e escuto tudo distante. Será tudo imaginação? Miragem? Lapso de loucura?
O céu escurece. Vejo o perigo iminente e tento manter a razão. Busco distração. Tomo um café. O tempo passa...
Afasto as moscas, elas insistem em me rodear. Está quente, muito quente. Começa a chover e o vento frio entra pela janela. Meu corpo treme. Organizo meus pensamentos desconexos e mais uma vez tento encontrar o caminho certo. Daí vem uma sensação de descaminho. Arritmia. Já não sei mais o que quero. Afundo-me dentro de mim mesma. Bem fundo, lá dentro, até encontrar o jazigo do meu ser. Toma conta de mim um estranho sentimento de prazer na dor e nessa situação meio sadista eu me pergunto: - Será que ainda tenho um pouco de sanidade mental?
Lavo a louça suja de uma semana. Tomo mais café.
Entro no banheiro e agora despida, entrego-me totalmente. Sinto um gosto amargo na garganta, um nó. É o sentimento de incapacidade e inadaptação diante do cenário que começa a se formar na minha frente. Minha respiração é cortada pela dor. Ligo o chuveiro e a água cai... a água cai... A maquiagem se desfaz. O preto do rímel escorre e mancha o meu rosto. Agora sou só eu. Eu e mais ninguém. O verdadeiro “eu” que às vezes me surpreende. Então choro... choro.
Sinto medo. Medo das estruturas não suportarem a tempestade. Já nem consigo colocar as dúvidas em fila única. São tantas... Não encontro o menor sentido desta situação fóbica. Nada faz sentido. – Será que eu consigo uma elucidação, resposta?
Aos poucos a tristeza vai se esvaindo, saindo pelo ralo. Progressivamente e pacientemente me sinto encorajada a encarar os fatos como alucinação...criação minha. Mas seria possível eu criar até a minha própria dor?
Abro a janela do quarto. Deito-me na cama. A chuva acabou. Minha respiração aos poucos volta ao normal. Sinto uma brisa suave. Esquento-me nos lençóis. O tempo passa...Não penso em mais nada...
Paz.


4 comentários:

jito disse...

humm.. nao sei!

acho sim, que de certa forma, vc cria sua tristeza! Nao digo que vc se faz de triste. Mas, possivelmente, permite-se.

Isso é bom? Ruim? Não sei!

Escreveu sobre isso, neh? Acho que isso já é uma resposta. Ou pelo menos um começo, haha

bjo!
gostei

deuza disse...

Nossa! elen, vocé escreveu um sentimento profundo, nao sei se realmente isso acontece com você , pelo menos escreveu.Acredito que isso é o retrato de muio gente e provavente de todos, pelo menos por algus seguntos, minutos, horas, ou mesmo dias,Parabens ficou muito bom.

Patrícia disse...

De todos seus textos este é de longe o melhor. Muito lindo essas metáforas da maquiagem, da chuva, do frio, aliás, as 4 estações , o que seria de nós se não houvessem todas elas? E nós, que viemos da mesma natureza, porque não seríamos assim? O ser linear é morto, é estático. Aliás, a linha reta é invenção do homem e não da natureza. A vida, o mar, o vôo dos pássaros, tudo é feito de ondas, e nessas idas e vindas nós renascemos melhores, e só somos melhores, porque é preciso a sombra para se perceber a luz. A dor nos dá a dimensão da alegria, nos renova se aceita com carinho, não masoquismo. Não há crescimento sem dor.
Quando somos todos os sentimentos humanos, bons e ruins, somos mais completos e vamos chegando mais perto desse nosso Eu Interior que nos assusta, nos faz sentir sozinhos, mas quando estamos de bem com nossa solidão, entendemos e respeitamos a solidão do outro e aí sim acontecem as melhores relações. Que lindo Elen, você se metarmofoseu nesse texto!

PS - adorei ver Jen Paul Sartre ilustrado nessas mosquinhas que nos rondam!
Profundo!!!!!!!!!!!!!

Paty

Kelson Fernandes disse...

Você tá boa, hein, minha filha?
Seus textos estão cada vez mais luxuosos!
;)

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