segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Rubrica


Minhas palavras parecem desgastadas, mesmo que desautorizadas por mim. Já previa meu desatino, minha recaída. Será que existe culpa? Será que eu sou a culpada? Não desculpo minha imaginação, ainda que desbotada, pois quase sempre ela é uma resposta à minha crise existencial. Às vezes não, mas quase sempre sim.

Aí jogo palavras soltas como quem quer se livrar de alguma coisa ruim. Descarto tudo, todas as possibilidades, todas as impressões falsas. Pois o que é imaginação, é apenas imaginação, é nada... Nada poderá ser.

Por favor, deixem-me analisar minha tristeza, tintim por tintim. Espero chegar a alguma conclusão coerente. Não quero me descuidar de mim. Tenho que cuidar de não errar, não variar, mesmo que tudo isto seja sujeito a variações, mesmo que tudo seja atropelado e incinerado.

Sei o que é. É esse tumulto que me faço entender tão bem e tão mal e que parece sempre igual... Acho que é só isso, algo desconectado da minha cabeça, um fio solto. É assim mesmo. Pode ser que, uma vez ou outra, eu me sinta mal articulada e cheia de ângulos, uma artífice pouco engenhosa.

Não me assusto. Só sinto um pouco de desgosto pelo o que eu nem sei dizer. Pelas palavras cansadas. Acho que pelas sobras dos sentimentos desembainhados vestidos em mim. Pela incapacidade. Pela falta de antibiótico. Pela sentença final de minha rubrica.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cirandinha de criança IV - A Tapioca

Quando eu morava em Acaracuzinho, lá pelas bandas de Maracanaú, pertinho de Genipapeiro, todas as manhãs de segunda-feira eu comia tapioca. A moça passava na rua gritando, Olha a tapioca, Olha a tapioca, Olha a tapioca boa e gostosa, e eu saía correndo pra fora de casa para comprar. A moça da tapioca se chamava Maria das Dores, mais conhecida como a moça da tapioca. Do portão de casa eu a avistava cruzando a esquina se rebolando toda. Ela era morena, alta, magra, porém feia, feia que doía. A moça andava meio corcunda com a lata na cabeça, e o cabelo era sempre o mesmo: louro à força, que lembrava mais gema de ovo do que qualquer outra coisa. Os dentes dela mal cabiam dentro da boca, ficavam mais pra fora do que pra dentro. Mas a tapioca era boa, boa e gostosa, mais gostosa do que boa. Mamãe também se chamava Maria, mas não das Dores, era Maria de Deus, só de Deus mesmo. E assim como a Maria das Dores, Maria de Deus também fazia boas tapiocas, porém, eu gostava mesmo era da tapioca da Maria das Dores. Mamãe era melhor no preparo de uma boa galinha cozida, apesar de, sempre antes de comer a galinha, ter que rezar por sua alma que jazia em seu leito de morte em meu estomago. A última vítima foi Aldegunda, a galinha que eu mais gostava das cinco galinhas que moravam no quintal de casa. Coitada, não teve jeito, tinha chegado a sua vez e mamãe fez um belo ensopado dela. Mas voltemos ao que interessa: as tapiocas de Maria das Dores, que eram as melhores, que vinham quentinhas dentro da lata, daquela lata grudada na cabeça de Maria, digo, Maria das Dores. Naquela época, tapioca era só tapioca, assim do tipo, pura, e às vezes com manteiga, mas de uns tempos pra cá deram de inventar moda com a tapioca. Tem tapioca de queijo, Romeu e Julieta, leite condensado, chocolate, banana e de carne-de-sol. E a tapioca foi ficando cada vez mais famosa, tomando seu espaço neste mundo globalizado. Até inventaram uma McOferta, que era Tapioca, batatas fritas e água de côco, e pagando mais um real, você levava um delicioso sorvete sabor tapioca. Mas aí eu mudei de cidade e nunca mais vi a moça da tapioca. Fiquei sabendo que ela abriu um estabelecimento numa sociedade com sua amiga, Maria do Socorro, e não confunda, é do Socorro, não é nem de Deus e nem das Dores, é do Socorro, Maria do Socorro, e a engenhoca se chamava Tapioca’s bar, mas, depois de dois anos Maria das Dores morreu. Morreu solteira, rica e feia. Dona Margarida, a futriqueira, disse que Maria das Dores morreu de dor nas costas, mas nunca descobriram o porquê dessa dor, e o que se sabe é só isso. Coisa triste. Quando fiquei sabendo, fiz uma super tapioca em memória de Maria das Dores, a moça da tapioca. Às vezes eu como uma tapioca por aí, mas nada se compara a tapioca de Maria das Dores. Também andei experimentando a tal da pamonha fresquinha de Piracicaba, do puro creme do milho verde, mas eu gosto mesmo é da tapioca, da tapioca boa e gostosa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

No divã

Enquanto isso, eu vou assim. Assim... Do tipo meio assim, assim. Sabe? Não sei explicar direito. Tem horas que não adianta falar difícil. Se já é difícil falar, quanto mais de modo difícil. Talvez eu prefira calar. Calar pra não complicar. Acho que é melhor assim. É melhor pra mim. É que eu falei tanto, ri tanto, gritei tanto, que agora é assim: Rouca. Sem som. A voz não sai. Fica dentro. Já sentiu isso? E eu falo sério. Desta vez não é ciranda, nem cirandinha. Antes fosse brincadeira, mas não é. É o que é. É reclusão por vontade própria. É silêncio.

Quando eu era criança tinha problema na fala. Eu trocava os sons. A língua embrulhava feito nó. Daí, mamãe me mandou pro médico pra dar um jeito nisso. Eu nem sabia que existia médico para essas coisas. Mas lembro que tive que passar durante um ano, todas às quintas-feiras, repetindo centenas de palavras com o tal médico conhecedor das palavras. Mas aí passou. Fiquei boa. Tive alta. E então, eu cresci e até mudei meu sobrenome. Isso foi coisa boa. Hoje calço 34 e visto 38. Mas não sei o quê que aconteceu, que agora eu dei de voltar a ser criança. A língua voltou a se enrolar. Ando assim, meio moca, muda. O berro oco não quebra o silêncio da casa, do quarto... Da alma. Alma vazia, fria, só. Qual era mesmo o nome do médico de fala? Esqueci.

É na Consolação que pego o caminho de volta para casa. Ando na linha. Às vezes, também, como uma astronauta em mundo estranho. Ao todo, são seis estações até chegar à Chácara Klabin. No caminho, brinco com os meus botões. Eles estão gastados. Dos cinco, ainda falta um. Ele caiu no chão, eu acho. Preciso comprar uma blusa nova... Novos botões. Ando pensando muito e falando pouco. Acho que estes botões não darão conta de segurar a pressão. Amanhã eu passo no alfaiate.

Todos os dias tem sido a mesma coisa. Engulo notas e notas da mesma canção, da mesma clave. Vai ver, é por isso que engordei três quilos só neste mês. Por isso que, de vez em quando, a barriga dói. Fico enjoada, como quem quer vomitar, mas não vomita. É por causa dela, da voz que não sai. Fica dentro. Ela faz cria e se multiplica dentro de mim. Cutuca a pele e vira ferida que não cura. Úlcera.

Engraçado. Já reparou que parece que o tempo passa e a gente volta a ser criança? Outro dia torci o meu pé na esquina de casa. Tive que usar gesso por um tempo e depois fiquei boa. Minha perna sarou, mas continuo com as muletas. E eu não dou o direito a ninguém de tirá-las de mim. São minhas muletas.

É verdade que hoje começa a primavera? Estranho, sinto frio. Parece inverno. Mas ainda bem que existem estações. Imagina só se fosse sempre frio? Daqui a pouco chega o verão e sol brilhará para todos, nem que seja um pouquinho. E enquanto isso, eu vou assim, assim, do tipo... Assim. É difícil descrever os distúrbios de minhas emoções. Tento não dar atenção à elas, mas a tentativa é vã. Elas querem fazer barulho. Então, volto ao bê-á-bá para encontrar algum eco, mas não encontro. A voz não sai.

Ainda bem que podemos virar as páginas dos livros. Ainda bem que todas as folhas possuem verso. Ainda bem que existe silêncio para que os sons se evidenciem. Ainda bem. Ainda bem.

Enquanto isso... Eu tento virar a página para uma nova história. História de criança com final feliz. Um novo começo, com frutas e flores. Talvez seja possível achar graça até mesmo no cinema mudo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amassado

Amassaram o João feito papel que não presta. Pena de João. Ele era branquinho e cheio de espaço para dar. Cheio de branco para muitas letrinhas, desenhos, cálculos e rabiscos. Mas, não. Preferiram amassar o João feito papel velho, usado. Coitado de João. Ficou todo machucado, marcado, imprestável... Uma bola. João virou uma bola de papel amassado. Do tipo que vai de lá para cá nas mãos de quem não tem o que fazer, e de quem brinca na hora da lição de classe.

Mais dia ou menos dia, João auto se desamassará. Passará o ferro em sua folha como roupa amassada. Bom para João. É bom saber que ele ainda pode se reciclar e voltar a ser branco. Mas ainda restarão as marcas. Eu sei. As marcas ficarão. Pena de João.

domingo, 23 de agosto de 2009

Ele é o que tem de ser

Domingo de chuva. Já arrumei a casa e lavei a roupa suja.

Sentada no sofá pego um álbum de fotografias e relembro o passado. O passado que me fez o presente de hoje. O presente de agora. O meu presente.

A cada foto uma história diferente, um momento passado. O passado que não volta, mas que me deu um presente. O presente nunca ausente. O presente sempre presente.

Eu gosto das lembranças do meu passado. Elas são doces. Mesmo as amargas se transformaram num doce presente. Doce como o mel.

É quase impossível não derramar lágrimas quando o filme é projetado na minha mente, trazendo sensações de um passado que já passou. Um passado que me trouxe um presente embrulhado com fitas vermelhas. O presente de presente. O presente mais que perfeito.

Então, relembro o momento que ele apareceu para mim sem pedir licença. Ele, que tanto tempo faz que chegou e aqui ficou. Ele, que faz parte de parte do meu passado, do meu presente e fará do meu futuro, simplesmente porque ele foi o que tinha de ser, porque ele é o que tem que ser, e que será o que tiver de ser. Ele, Alessandro Gruber.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Olhando e pensando

o que você pensa? from ELEN BRAGA GRUBER on Vimeo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cirandinha de criança III - As filhas de Maria


Em mil novecentos e antigamente minha mãe completou seus trinta e poucos anos de idade. Naquele dia ela saiu cedo de casa. Foi pra “cidade” fazer compras. Papai tinha saído para o trabalho e minha irmã e eu ficamos sozinhas em casa. E depois de poucas horas, já tínhamos feito de tudo. Assistimos o programa da Xuxa, brincamos com terra, vestimos as roupas e sapatos de mamãe, fuçamos as ferramentas de papai, competimos quem arrotava mais alto etc. e tal. Até que ficamos de pernas pro ar, sem nada para fazer. Bolamos um plano de preparar uma mega surpresa de aniversário para mamãe. Uma super limonada. Ora, ora, não tínhamos muitos recursos e não sabíamos fazer um bolo confeitado e nem muito menos brigadeiro, quindim, cajuzinho e beijinho. E do sofá, fomos direto para a cozinha. Pegamos os limões, a água e a jarra. Faltava o açúcar. Não o encontramos em lugar algum. Vasculhamos em toda parte e em tudo quanto era pote no armário e nada. Achei, sem querer, um resto de farofa azeda. É que, lá em casa, todos os domingos a gente ia à praia. Quero dizer, isso quando papai não resolvia fazer um “bico” bem na hora de sair e nos deixava esperando com a farofa pronta. Eu chorava e não tirava o maiô do corpo o dia inteiro. Minha irmã se consolava tomando banho com a mangueira no quintal. E a farofa ficava pro almoço, para não estragar. Mas esta, com certeza estava estragada. Fui até o quintal e joguei toda ela no prato de Frederico. O gato gostava destas coisas. Outro dia ele apareceu com rato na boca. Desfilava pela casa todo exibido, como se tivesse carregando um troféu. Mamãe o expulsou de casa com chineladas. Coitado de Frederico, vivia apanhando. E ele gostou tanto da farofa que lambeu todo o prato. Depois veio miando e se embrulhando nas minhas pernas enquanto eu voltava pra cozinha. Eu gostava muito de Frederico. Fiquei muito triste quando ele morreu. E não faz muito tempo que fiquei sabendo que ele tinha batido as patas. Não foi de morte matada, foi de morte morrida mesmo. Mas naquele dia ele estava ali, todo faceiro atrás de mais comida velha. Cheguei à cozinha e minha irmã me contou sua brilhante idéia. Pegaríamos açúcar no mercado da frente de casa. O Seu Erivaldo era o dono do estabelecimento. Gente boa. Só andava meio torto. A dona Margarida, a futriqueira, uma vez saiu espalhando que ele andava torto por causa de um problema nas ancas. E ela disse mais, falou que a culpa era da mulher dele que toda noite subia pelas paredes. Não entendia nada dessa história. Sabia que ele andava torto, e pelo o que eu via, a sua vida não era torta.

Pulamos o muro de casa. Primeiro eu e depois a minha irmã. Caí na gargalhada quando me lembrei do último episódio dela exatamente naquele pedaço de parede. A doida pulou o muro de um jeito, que lascou a bunda no chão. E tem uma cicatriz até hoje. Não demorou muito para que ela percebesse minha malvadeza no riso e ficou muito brava. Ameaçou quebrar o pescoço de Benemérita, minha boneca favorita, caso eu não parasse de rir. Calei o bico. Ajeitei o vestido e saímos feito panteras cor-de-rosa em busca do açúcar. Atravessamos a rua e entramos no supermercado. Enquanto eu vigiava o seu Erivaldo pela frestinha da porta, minha irmã pegava um punhado de açúcar de uma bacia. E isto não era roubo, era emprestado. Feito isso, saímos correndo e ouvindo o Seu Erivaldo gritando, Voltem aqui com o meu açúcar, suas filhas de Maria! Mas o leso não conseguiu nos alcançar por causa de suas ancas tortas, e ele soltou o verbo. Nem precisava tudo aquilo. Era só um bocadinho de açúcar que não lhe faria falta. O velho era tão mesquinha, pão-duro, que nunca me deu um doce sequer. Nem um biscoitinho. Outro dia vi um pote de iogurte vencido à venda na prateleira do supermercado. Vai ver, ele não andava muito bem das pernas. Digo isso não no sentido literal, mas, no sentido de pobreza mesmo, porque torto ele já era. É nisso que dá, vender fiado pra todo mundo. Mas era só anotar a porção de açúcar no caderninho, que depois mamãe acertava as contas, se fosse o caso. O que importava naquela hora, é que nós teríamos uma limonada doce para mamãe. Voltamos para casa, limpamos as mãos na roupa do corpo e terminamos a surpresa. Colocamos o suco dentro de um copo, que colocamos numa bandeja, que colocamos em cima da mesa, que colocamos no centro da sala, que desligamos a luz, que esperamos no sofá, que olhamos para o chão, que olhamos para o teto, que olhamos para as paredes e nada de mamãe chegar. Depois de algumas horas ela abriu o portão. A casa estava toda ensebada de açúcar. A suco parecia de jabuticaba de tão escuro. Cantamos parabéns e ela tomou um gole daquela maçaroca. Fez uma cara de gastura, virou os olhos do avesso e disse, Está uma delícia. Minha irmã e eu olhamos uma para outra e dissemos, Então toma tudinho.

sábado, 25 de julho de 2009

Minhas férias na Europa

Minhas férias na Europa from ELEN BRAGA GRUBER on Vimeo.