segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Rubrica
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Cirandinha de criança IV - A Tapioca
Quando eu morava em Acaracuzinho, lá pelas bandas de Maracanaú, pertinho de Genipapeiro, todas as manhãs de segunda-feira eu comia tapioca. A moça passava na rua gritando, Olha a tapioca, Olha a tapioca, Olha a tapioca boa e gostosa, e eu saía correndo pra fora de casa para comprar. A moça da tapioca se chamava Maria das Dores, mais conhecida como a moça da tapioca. Do portão de casa eu a avistava cruzando a esquina se rebolando toda. Ela era morena, alta, magra, porém feia, feia que doía. A moça andava meio corcunda com a lata na cabeça, e o cabelo era sempre o mesmo: louro à força, que lembrava mais gema de ovo do que qualquer outra coisa. Os dentes dela mal cabiam dentro da boca, ficavam mais pra fora do que pra dentro. Mas a tapioca era boa, boa e gostosa, mais gostosa do que boa. Mamãe também se chamava Maria, mas não das Dores, era Maria de Deus, só de Deus mesmo. E assim como a Maria das Dores, Maria de Deus também fazia boas tapiocas, porém, eu gostava mesmo era da tapioca da Maria das Dores. Mamãe era melhor no preparo de uma boa galinha cozida, apesar de, sempre antes de comer a galinha, ter que rezar por sua alma que jazia em seu leito de morte em meu estomago. A última vítima foi Aldegunda, a galinha que eu mais gostava das cinco galinhas que moravam no quintal de casa. Coitada, não teve jeito, tinha chegado a sua vez e mamãe fez um belo ensopado dela. Mas voltemos ao que interessa: as tapiocas de Maria das Dores, que eram as melhores, que vinham quentinhas dentro da lata, daquela lata grudada na cabeça de Maria, digo, Maria das Dores. Naquela época, tapioca era só tapioca, assim do tipo, pura, e às vezes com manteiga, mas de uns tempos pra cá deram de inventar moda com a tapioca. Tem tapioca de queijo, Romeu e Julieta, leite condensado, chocolate, banana e de carne-de-sol. E a tapioca foi ficando cada vez mais famosa, tomando seu espaço neste mundo globalizado. Até inventaram uma McOferta, que era Tapioca, batatas fritas e água de côco, e pagando mais um real, você levava um delicioso sorvete sabor tapioca. Mas aí eu mudei de cidade e nunca mais vi a moça da tapioca. Fiquei sabendo que ela abriu um estabelecimento numa sociedade com sua amiga, Maria do Socorro, e não confunda, é do Socorro, não é nem de Deus e nem das Dores, é do Socorro, Maria do Socorro, e a engenhoca se chamava Tapioca’s bar, mas, depois de dois anos Maria das Dores morreu. Morreu solteira, rica e feia. Dona Margarida, a futriqueira, disse que Maria das Dores morreu de dor nas costas, mas nunca descobriram o porquê dessa dor, e o que se sabe é só isso. Coisa triste. Quando fiquei sabendo, fiz uma super tapioca em memória de Maria das Dores, a moça da tapioca. Às vezes eu como uma tapioca por aí, mas nada se compara a tapioca de Maria das Dores. Também andei experimentando a tal da pamonha fresquinha de Piracicaba, do puro creme do milho verde, mas eu gosto mesmo é da tapioca, da tapioca boa e gostosa.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
No divã
Enquanto isso, eu vou assim. Assim... Do tipo meio assim, assim. Sabe? Não sei explicar direito. Tem horas que não adianta falar difícil. Se já é difícil falar, quanto mais de modo difícil. Talvez eu prefira calar. Calar pra não complicar. Acho que é melhor assim. É melhor pra mim. É que eu falei tanto, ri tanto, gritei tanto, que agora é assim: Rouca. Sem som. A voz não sai. Fica dentro. Já sentiu isso? E eu falo sério. Desta vez não é ciranda, nem cirandinha. Antes fosse brincadeira, mas não é. É o que é. É reclusão por vontade própria. É silêncio.
É na Consolação que pego o caminho de volta para casa. Ando na linha. Às vezes, também, como uma astronauta em mundo estranho. Ao todo, são seis estações até chegar à Chácara Klabin. No caminho, brinco com os meus botões. Eles estão gastados. Dos cinco, ainda falta um. Ele caiu no chão, eu acho. Preciso comprar uma blusa nova... Novos botões. Ando pensando muito e falando pouco. Acho que estes botões não darão conta de segurar a pressão. Amanhã eu passo no alfaiate.
Enquanto isso... Eu tento virar a página para uma nova história. História de criança com final feliz. Um novo começo, com frutas e flores. Talvez seja possível achar graça até mesmo no cinema mudo.
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terça-feira, 25 de agosto de 2009
Amassado
Amassaram o João feito papel que não presta. Pena de João. Ele era branquinho e cheio de espaço para dar. Cheio de branco para muitas letrinhas, desenhos, cálculos e rabiscos. Mas, não. Preferiram amassar o João feito papel velho, usado. Coitado de João. Ficou todo machucado, marcado, imprestável... Uma bola. João virou uma bola de papel amassado. Do tipo que vai de lá para cá nas mãos de quem não tem o que fazer, e de quem brinca na hora da lição de classe.
Mais dia ou menos dia, João auto se desamassará. Passará o ferro em sua folha como roupa amassada. Bom para João. É bom saber que ele ainda pode se reciclar e voltar a ser branco. Mas ainda restarão as marcas. Eu sei. As marcas ficarão. Pena de João.
domingo, 23 de agosto de 2009
Ele é o que tem de ser
Domingo de chuva. Já arrumei a casa e lavei a roupa suja.
Sentada no sofá pego um álbum de fotografias e relembro o passado. O passado que me fez o presente de hoje. O presente de agora. O meu presente.
A cada foto uma história diferente, um momento passado. O passado que não volta, mas que me deu um presente. O presente nunca ausente. O presente sempre presente.
Eu gosto das lembranças do meu passado. Elas são doces. Mesmo as amargas se transformaram num doce presente. Doce como o mel.
É quase impossível não derramar lágrimas quando o filme é projetado na minha mente, trazendo sensações de um passado que já passou. Um passado que me trouxe um presente embrulhado com fitas vermelhas. O presente de presente. O presente mais que perfeito.
Então, relembro o momento que ele apareceu para mim sem pedir licença. Ele, que tanto tempo faz que chegou e aqui ficou. Ele, que faz parte de parte do meu passado, do meu presente e fará do meu futuro, simplesmente porque ele foi o que tinha de ser, porque ele é o que tem que ser, e que será o que tiver de ser. Ele, Alessandro Gruber.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Cirandinha de criança III - As filhas de Maria
