segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Tempestade

Nesses dias tenho lembrado de minha infância. Época em que a felicidade extravasava ao sinal da primeira gota caída do céu. Olhava para cima como quem admirava um dos maiores espetáculos do mundo e me vestia de tanta alegria, que saía correndo rua abaixo sentindo o prazer do banho de chuva. Mas aí a gente cresce e vai adquirindo medo das coisas. Medos inventados e criados pela nossa cabeça. Imaginava que pessoa grande fosse forte e corajosa. Papai era assim, mas eu...Hoje eu tenho medo dos ventos, dos trovões e de todos os derivativos de um temporal. São as estações do ano. Passamos por todas elas, mas esta talvez seja a pior de todas. Como resistir a uma tempestade?

Não sei muito bem aonde quero chegar nesse post. Senti necessidade de escrever sobre isso. Talvez por algum senso de dever dentro de mim, que pensa que escrever poderia aliviar a culpa pela indiferença dos últimos acontecimentos provenientes de tempestades. Tento aqui não enfeitar as coisas e não usar de arte o que, para mim, é tão sério. Mas é quase impossível, pois a vida é encantada por pior que ela seja para tantos.

Não falo de mim, apenas para mim. E continuarei, sem muito saber e sem representar nenhum papel. Tentarei ser nítida mesmo com tanta água embaçando as letras, desmanchando minhas frases, desabando meus objetivos e misturando os meus sentidos. E eu sei que me ludibrio com os meus eufemismos e metáforas, mas é que sou sensível às tempestades e fico com essa enchente dentro de mim. Algo que transborda por todos os lados e fico assim, subtraída.

Mas certa vez me disseram que é na tempestade que aparecem as oportunidades. Por isso tenho lembrado de minha fase primária. Pela vontade de voltar a ser corajosa e livre de receios. De sair correndo pela chuva sem medo dos trovões, de me banhar de tanto prazer por coisas que hoje tenho medo. E é lembrando do meu passado que chego na conclusão de que sim, é possível resistir aos ventos fortes, a tempestade. Basta voltar a ser criança e ao sinal da primeira gota de um temporal, olhar para cima e admirar o espetáculo: A tempestade

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Cirandinha de criança V - A bicicleta dos sonhos

Não sabia ao certo quanto tempo se passara. Acordei com a boca aberta por causa do nariz entupido e com muriçocas a me sugarem o sangue. Meus olhos abriam e fechavam desobedientes e pouco intimidados aos meus mandados, como se a vida a eles somente pertencesse. Já era outro dia que vinha com estampidos em minha cabeça e aos poucos uma vaga lembrança da noite passada. Foi quando vi que não era apenas um sonho, e sim, um pesadelo daqueles. E para meu terror, ele se mostrava para mim cada vez mais legível: o embrulho em cima da penteadeira. Nem sequer me dei o trabalho de abri-lo. Desviei o olhar daquela coisa e fechei os olhos novamente. Fiquei ali como abandonada à própria sorte, pois assim quisera eu, viver como amortalhada, mais pra lá do que pra cá. Quem sabe desse jeito papai tivesse piedade de mim.

Mas mal tive tempo de desfrutar de meu próprio velório, de me fazer defunta e viajar na escuridão do meu ser, quando veio minha irmã toda afoita. Enquanto eu ressuscitava e desfazia de meus lençóis, ela mostrava seu lindo presente do papai noel: A piscina da barbie. Grande coisa. Um dia de piscina no clube do tio Rucléucio seria muito mais legal do que trezentos dias com uma piscina emprestável de brinquedo. Além do mais eu não acreditava em papai noel e já me sentia gente bastante grande para ganhar brinquedos. Queria uma bicicleta de verdade. Cor de rosa pink e com cestinha no guidão. Mas meu dia começava mal, pois estava bastante segura de que naquele embrulho desgraçado não caberia uma bicicleta, nem se fosse em pixels.

Acontece que papai me prometera, durante o ano inteiro, uma bicicleta de presente de natal, caso eu aprendesse a andar numa. Foi necessário apenas um final de semana para que eu cumprisse, sem muitos “ossos”, o meu ofício. E assim, todas as tardes eu saia para passear com a bicicleta velha, feia e azul da minha irmã. Nas pedaladas um sonho: a bicicleta rosa pink com cestinha no guidão. E como foram longos os dias e tão longas as horas, que morreria de ansiedade não fossem as muitas atividades de uma menina quase mulher.

Então, o que seria o dia mais legal do ano, tornou-se o pior de todos, quando vi o maldito embrulho de presente de natal. Aí vieram os prantos por um sonho magoado. Rezei a todos os santos que me levassem ao vento, para neste mundo não mais sofrer. Fiquei com o coração entristecido durante a noite toda, até que entrei num sono profundo. Sonhei com minha bicicleta rosa pink com cestinha no guidão. Ah! como era linda, como eu era feliz... Até que fui atropelada por um caminhão e acordei. Foi quando vi que não era apenas um sonho, e sim, um pesadelo daqueles. Sentei-me na cama e fiquei olhando o embrulho desgraçado.

As horas se passaram e mamãe deu por minha falta no almoço. Ela entrou no quarto como tufão e me arrastou pelas mãos até à mesa. A comida estava insossa. Papai parecia triste, imaginei que fosse por causa de sua dor de dente. Ele me perguntou, Já abriu o presente, filha. Abaixei a cabeça e disse, Não. Ele continuou comendo. Talvez soubesse que depositei tanta expectativa sobre as coisas, que preferi não abrir o presente que a vida me deu, para não me decepcionar. Algo estranho no meu peito me dizia que deveria abrir o presente. Fui até o quarto, peguei o embrulho e fiquei observando. Tomei coragem e abri. Dentro dele uma carta que a li num soluço parecendo voz: Querida, filha, o papai te ama muito e isso é tudo que te dou de mais especial, Feliz Natal.

E foi assim que a bicicleta se tornou apenas um sonho.

obs. Não era para ser uma história triste. :(

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pot pourri de mim

Talvez seja um pouco ofensivo, mas imagino que seja pena. Dó. Dó de mim. Não pelos meus exageros. Acho que pelas motivações. Pela imagem pintada. Pela falsa esperança, ela que sempre acaba no dia seguinte quando abro os olhos. Pena de mim, pelo que posso vir a ser. Do que sou, mas não sou. Do que prefiro esconder.

Não me arrependo do que faço. Não censuro minha vida, minhas expressões. Só me preocupo com o outro. Ele que pode ser afetado pelos meus atos. Ele que nunca entenderá minhas razões. É normal que eu pense que poderia ter feito diferente, pois não pensava que seria assim, não esperava isso pra mim. A vida me conta histórias, mas essa parte não é minha. Não deveria.

Só eu sei que escondo minha fraqueza, meu esgotamento por detrás das letras. Mas quem se interessaria por estes meus assuntos? Quem agüentaria o mesmo assunto? Sempre? Quem conheceria a origem desta minha síndrome?

Todo mundo tem sua sombra e isso é natural. Limitar-se a sombra dos outros seria um erro. Construir o exterior e o interior de pessoas por suas sombras seria um engano, pois a sombra é somente um índice de uma idéia. Ela até pode significar algo, mas nunca será idêntica, não é pensamento não é emoção... É sombra. A minha, eu não consigo ver, mas sei que sempre me acompanha e só os outros a observam. Já minhas percepções são impenetráveis. São elas que dirigem meus juízos e eu não os revelaria a ninguém. Não correria o risco de mostrar minhas pisadas em falso. Porque sei que as aparências enganam.

O mundo é cheio de imagens e conservo em minha memória cópias de coisas desse mundo exterior. Não sei se essas imagens são verdadeiras, ou apenas falsas percepções, assim como lá fora ninguém sabe se minha imagem é real ou uma mentira. Porém eu tenho lutado contra isso. Contra estes pensamentos fúteis, mas quando olho para mim, não vejo o que gostaria. Não era isso que eu queria. E não sabia que seria assim tão difícil. É essa dificuldade que salta aos meus olhos todos os dias e que não pode ser evitada. Por isso a pena e dó. Dó de mim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Rubrica


Minhas palavras parecem desgastadas, mesmo que desautorizadas por mim. Já previa meu desatino, minha recaída. Será que existe culpa? Será que eu sou a culpada? Não desculpo minha imaginação, ainda que desbotada, pois quase sempre ela é uma resposta à minha crise existencial. Às vezes não, mas quase sempre sim.

Aí jogo palavras soltas como quem quer se livrar de alguma coisa ruim. Descarto tudo, todas as possibilidades, todas as impressões falsas. Pois o que é imaginação, é apenas imaginação, é nada... Nada poderá ser.

Por favor, deixem-me analisar minha tristeza, tintim por tintim. Espero chegar a alguma conclusão coerente. Não quero me descuidar de mim. Tenho que cuidar de não errar, não variar, mesmo que tudo isto seja sujeito a variações, mesmo que tudo seja atropelado e incinerado.

Sei o que é. É esse tumulto que me faço entender tão bem e tão mal e que parece sempre igual... Acho que é só isso, algo desconectado da minha cabeça, um fio solto. É assim mesmo. Pode ser que, uma vez ou outra, eu me sinta mal articulada e cheia de ângulos, uma artífice pouco engenhosa.

Não me assusto. Só sinto um pouco de desgosto pelo o que eu nem sei dizer. Pelas palavras cansadas. Acho que pelas sobras dos sentimentos desembainhados vestidos em mim. Pela incapacidade. Pela falta de antibiótico. Pela sentença final de minha rubrica.


terça-feira, 6 de outubro de 2009

Cirandinha de criança IV - A Tapioca

Quando eu morava em Acaracuzinho, lá pelas bandas de Maracanaú, pertinho de Genipapeiro, todas as manhãs de segunda-feira eu comia tapioca. A moça passava na rua gritando, Olha a tapioca, Olha a tapioca, Olha a tapioca boa e gostosa, e eu saía correndo pra fora de casa para comprar. A moça da tapioca se chamava Maria das Dores, mais conhecida como a moça da tapioca. Do portão de casa eu a avistava cruzando a esquina se rebolando toda. Ela era morena, alta, magra, porém feia, feia que doía. A moça andava meio corcunda com a lata na cabeça, e o cabelo era sempre o mesmo: louro à força, que lembrava mais gema de ovo do que qualquer outra coisa. Os dentes dela mal cabiam dentro da boca, ficavam mais pra fora do que pra dentro. Mas a tapioca era boa, boa e gostosa, mais gostosa do que boa. Mamãe também se chamava Maria, mas não das Dores, era Maria de Deus, só de Deus mesmo. E assim como a Maria das Dores, Maria de Deus também fazia boas tapiocas, porém, eu gostava mesmo era da tapioca da Maria das Dores. Mamãe era melhor no preparo de uma boa galinha cozida, apesar de, sempre antes de comer a galinha, ter que rezar por sua alma que jazia em seu leito de morte em meu estomago. A última vítima foi Aldegunda, a galinha que eu mais gostava das cinco galinhas que moravam no quintal de casa. Coitada, não teve jeito, tinha chegado a sua vez e mamãe fez um belo ensopado dela. Mas voltemos ao que interessa: as tapiocas de Maria das Dores, que eram as melhores, que vinham quentinhas dentro da lata, daquela lata grudada na cabeça de Maria, digo, Maria das Dores. Naquela época, tapioca era só tapioca, assim do tipo, pura, e às vezes com manteiga, mas de uns tempos pra cá deram de inventar moda com a tapioca. Tem tapioca de queijo, Romeu e Julieta, leite condensado, chocolate, banana e de carne-de-sol. E a tapioca foi ficando cada vez mais famosa, tomando seu espaço neste mundo globalizado. Até inventaram uma McOferta, que era Tapioca, batatas fritas e água de côco, e pagando mais um real, você levava um delicioso sorvete sabor tapioca. Mas aí eu mudei de cidade e nunca mais vi a moça da tapioca. Fiquei sabendo que ela abriu um estabelecimento numa sociedade com sua amiga, Maria do Socorro, e não confunda, é do Socorro, não é nem de Deus e nem das Dores, é do Socorro, Maria do Socorro, e a engenhoca se chamava Tapioca’s bar, mas, depois de dois anos Maria das Dores morreu. Morreu solteira, rica e feia. Dona Margarida, a futriqueira, disse que Maria das Dores morreu de dor nas costas, mas nunca descobriram o porquê dessa dor, e o que se sabe é só isso. Coisa triste. Quando fiquei sabendo, fiz uma super tapioca em memória de Maria das Dores, a moça da tapioca. Às vezes eu como uma tapioca por aí, mas nada se compara a tapioca de Maria das Dores. Também andei experimentando a tal da pamonha fresquinha de Piracicaba, do puro creme do milho verde, mas eu gosto mesmo é da tapioca, da tapioca boa e gostosa.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

No divã

Enquanto isso, eu vou assim. Assim... Do tipo meio assim, assim. Sabe? Não sei explicar direito. Tem horas que não adianta falar difícil. Se já é difícil falar, quanto mais de modo difícil. Talvez eu prefira calar. Calar pra não complicar. Acho que é melhor assim. É melhor pra mim. É que eu falei tanto, ri tanto, gritei tanto, que agora é assim: Rouca. Sem som. A voz não sai. Fica dentro. Já sentiu isso? E eu falo sério. Desta vez não é ciranda, nem cirandinha. Antes fosse brincadeira, mas não é. É o que é. É reclusão por vontade própria. É silêncio.

Quando eu era criança tinha problema na fala. Eu trocava os sons. A língua embrulhava feito nó. Daí, mamãe me mandou pro médico pra dar um jeito nisso. Eu nem sabia que existia médico para essas coisas. Mas lembro que tive que passar durante um ano, todas às quintas-feiras, repetindo centenas de palavras com o tal médico conhecedor das palavras. Mas aí passou. Fiquei boa. Tive alta. E então, eu cresci e até mudei meu sobrenome. Isso foi coisa boa. Hoje calço 34 e visto 38. Mas não sei o quê que aconteceu, que agora eu dei de voltar a ser criança. A língua voltou a se enrolar. Ando assim, meio moca, muda. O berro oco não quebra o silêncio da casa, do quarto... Da alma. Alma vazia, fria, só. Qual era mesmo o nome do médico de fala? Esqueci.

É na Consolação que pego o caminho de volta para casa. Ando na linha. Às vezes, também, como uma astronauta em mundo estranho. Ao todo, são seis estações até chegar à Chácara Klabin. No caminho, brinco com os meus botões. Eles estão gastados. Dos cinco, ainda falta um. Ele caiu no chão, eu acho. Preciso comprar uma blusa nova... Novos botões. Ando pensando muito e falando pouco. Acho que estes botões não darão conta de segurar a pressão. Amanhã eu passo no alfaiate.

Todos os dias tem sido a mesma coisa. Engulo notas e notas da mesma canção, da mesma clave. Vai ver, é por isso que engordei três quilos só neste mês. Por isso que, de vez em quando, a barriga dói. Fico enjoada, como quem quer vomitar, mas não vomita. É por causa dela, da voz que não sai. Fica dentro. Ela faz cria e se multiplica dentro de mim. Cutuca a pele e vira ferida que não cura. Úlcera.

Engraçado. Já reparou que parece que o tempo passa e a gente volta a ser criança? Outro dia torci o meu pé na esquina de casa. Tive que usar gesso por um tempo e depois fiquei boa. Minha perna sarou, mas continuo com as muletas. E eu não dou o direito a ninguém de tirá-las de mim. São minhas muletas.

É verdade que hoje começa a primavera? Estranho, sinto frio. Parece inverno. Mas ainda bem que existem estações. Imagina só se fosse sempre frio? Daqui a pouco chega o verão e sol brilhará para todos, nem que seja um pouquinho. E enquanto isso, eu vou assim, assim, do tipo... Assim. É difícil descrever os distúrbios de minhas emoções. Tento não dar atenção à elas, mas a tentativa é vã. Elas querem fazer barulho. Então, volto ao bê-á-bá para encontrar algum eco, mas não encontro. A voz não sai.

Ainda bem que podemos virar as páginas dos livros. Ainda bem que todas as folhas possuem verso. Ainda bem que existe silêncio para que os sons se evidenciem. Ainda bem. Ainda bem.

Enquanto isso... Eu tento virar a página para uma nova história. História de criança com final feliz. Um novo começo, com frutas e flores. Talvez seja possível achar graça até mesmo no cinema mudo.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Amassado

Amassaram o João feito papel que não presta. Pena de João. Ele era branquinho e cheio de espaço para dar. Cheio de branco para muitas letrinhas, desenhos, cálculos e rabiscos. Mas, não. Preferiram amassar o João feito papel velho, usado. Coitado de João. Ficou todo machucado, marcado, imprestável... Uma bola. João virou uma bola de papel amassado. Do tipo que vai de lá para cá nas mãos de quem não tem o que fazer, e de quem brinca na hora da lição de classe.

Mais dia ou menos dia, João auto se desamassará. Passará o ferro em sua folha como roupa amassada. Bom para João. É bom saber que ele ainda pode se reciclar e voltar a ser branco. Mas ainda restarão as marcas. Eu sei. As marcas ficarão. Pena de João.

domingo, 23 de agosto de 2009

Ele é o que tem de ser

Domingo de chuva. Já arrumei a casa e lavei a roupa suja.

Sentada no sofá pego um álbum de fotografias e relembro o passado. O passado que me fez o presente de hoje. O presente de agora. O meu presente.

A cada foto uma história diferente, um momento passado. O passado que não volta, mas que me deu um presente. O presente nunca ausente. O presente sempre presente.

Eu gosto das lembranças do meu passado. Elas são doces. Mesmo as amargas se transformaram num doce presente. Doce como o mel.

É quase impossível não derramar lágrimas quando o filme é projetado na minha mente, trazendo sensações de um passado que já passou. Um passado que me trouxe um presente embrulhado com fitas vermelhas. O presente de presente. O presente mais que perfeito.

Então, relembro o momento que ele apareceu para mim sem pedir licença. Ele, que tanto tempo faz que chegou e aqui ficou. Ele, que faz parte de parte do meu passado, do meu presente e fará do meu futuro, simplesmente porque ele foi o que tinha de ser, porque ele é o que tem que ser, e que será o que tiver de ser. Ele, Alessandro Gruber.

 
BlogBlogs.Com.Br